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Em Cisne Negro, música de Clint Mansell revela estado da alma

Heitor Augusto

Se você escutar atentamente o desenvolvimento de Nina’s Dream, música executada na sequência inicial de Cisne Negro, vai perceber – ou pelo menos sentir e intuir – todo o arco dramático da personagem protagonista, Nina. Apenas com um agrupamento de notas, muito parecido com a partitura originalmente escrita por Tchaikovsky, conta-se a história da bailarina que aspira estrelar uma nova montagem de O Lago dos Cisnes.

Trata-se de um notável trabalho do compositor britânico Clint Mansell que, se não fosse pelo fim da banda Pop Will Eat Itself, talvez não tivesse entrado no cinema. Após o fim do grupo, Darren Aronofsky, à época um promissor curta-metragista, convidou, em 1997, o amigo Clint para musicar seu primeiro longa, Pi. O mundo se abriu para o estilo narrativo de Aronofsky e para as composições de Mansell.

Os temas do músico britânico não evocam apenas sensações, mas contam histórias. Já fora assim em Réquiem Para Um Sonho (2000), também parceria com Aronofsky, quando Mansell escreveu a sublime Lux Æterna: nessa música, temos o arco dramático de uma narrativa e uma torrente de emoções que dá até vontade de arrancar o coração.

Em Cisne Negro, por causa da natureza mais clássica do filme, o trabalho musical é mais elegante e geralmente atua em três registros: ambiência, descrição e explosão dramática. O pico emotivo musical acompanha os momentos importantes do filme e certamente o terceiro registro é o que ganha maior destaque.

Um exemplo é A New Swan Queen, faixa cinco do álbum da trilha sonora. A música dá o clima da cena ao espectador, reitera o que diálogo e interpretação já descreveram e arrancam da alma de Natalie Portman o que significa de fato o nascimento de uma nova rainha.

Claro que o trabalho de Clint Mansell foi realizado em cima de algumas bases tradicionais da música clássica e especialmente da partitura escrita por Tchaikovski para o balé O Lago dos Cisnes, em 1875. Mansell explica em que chão pisou para escrever os temas do filme de Aronofsky:

“A ideia fundamental era escrever toda a trilha sonora a partir de elementos do balé de Tchaikovsky. Quer dizer, teríamos de mexer muito, mas é apenas um ponto de partida. Tínhamos algumas ideias no passado, mas quando você as coloca em prática, às vezes não colam”.

Ter bebido em Tchaikovsky foi o pecado capital que Mansell cometeu: seu trabalho foi excluído pela Academia pelo “uso de temas conhecidos ou músicas já existentes”. Culpa do Tchaikovsky, ora pois!

Expressionismo alemão

Música e filme remetem também ao expressionismo alemão no cinema, referência que pode ser sentida em Opposites Attract. O ar meigo do cisne branco se mistura com o tom grandioso e trágico de uma personagem que tenta represar sua porção de cisne negro. Nina não aceita ser uma mulher constituída de múltiplas identidades e quando as descobre o resultado é desastroso. A música não deixa de pontuar seus duplos no espelho e a crescente paranóia à Buñuel.

Mas certamente o auge do trabalho de Clint Mansell em Cisne Negro é A Swan is Born [vídeo abaixo]: catarse pura aliada à imagem da personagem de Natalie Portman assumindo sua porção obscura. Efeito ampliado pela música que segue, Perfection, que joga com nossa adrenalina, controlando-a para, em seguida, nos conduzir para a explosão sentimental digna de Gottfried Huppertz em Metrópolis.

Em Perfection, Mansell simplesmente brinca com nossos sentimentos. Para encerrar o álbum, A Swan Song (For Nina), que retoma tragicamente o tema inicial do filme.
https://newrockerpost.files.wordpress.com/2011/09/cisne-negro-port-cartel.jpg?w=300

Outras parcerias

Os trabalhos mais relevantes do músico britânico no cinema são as composições para os longas-metragens de Darren Aronofsky. Mansell assina também outras trilhas menos importantes, como A Cartada, Novidades no Amor, Filhos da Máfia, Cálculo Mortal e por aí vai.

À exceção nesse mar de produções medíocres é a parceria com Duncan Jones, filho de David Bowie, que estrou com a ficção científica independente Lunar. Ali Mansell mostra que tem algo a dizer, misturando o trabalho clássico e elegante com o pop – Welcome to Lunar Industries serve de ilustração.

Pena que a indústria disse “não” a Clint Mansell e a parceria que se repetiria no segundo longa de Jones, Source Code, foi interrompida sob a alegação, por parte dos produtores, de conflitos de agenda. No final de 2009, o compositor afirmou o seguinte para o SlashFilm:

“Acho o Duncan um cara sensacional, tem muito talento e adoraria fazer mais filmes com ele. O problema é que a gente nunca sabe o que o estúdio vai querer, eles podem olhar para todo o time, incluindo a mim, e achar que não temos a experiência que o estúdio deseja. Talvez seja o caso no qual Duncan terá de fazer o que deve ser feito a fim de continuar”.

Dá para ler nas entrelinhas? Saiu Clint Mansell e entrou Chris Bacon.

http://cinema.cineclick.uol.com.br/sonoras/carregar/titulo/em-cisne-negro-musica-de-clint-mansell-revela-estado-da-alma/id/66

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